O que é um outlier?

16 jan., 2026

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Fonte da imagem: elaboração própria



A definição de outlier

A definição de outlier é simples: trata-se de um valor discrepante, que destoa dos demais. Outlier é o termo em inglês; em português, podemos dizer “valor discrepante” ou “valor atípico”. Mas a verdade é que o termo em inglês é muito mais utilizado no contexto de análise de dados, então, seguirei com ele, ok?

Por exemplo, na base de dados abaixo, com idades de alunos de um cursinho pré-vestibular, organizadas em ordem crescente, percebemos que a idade de 75 anos destoa das demais, todas na faixa de 16 a 25 anos:

Idade (anos)

16

17

18

18

19

19

19

20

20

21

21

25

75

Se colocarmos essas idades em um gráfico de dispersão, com um ponto representando cada aluno, veremos que a idade de 75 anos se distancia de todas as demais:

Como identificar se um valor é um outlier?

Você talvez tenha visto o exemplo acima e pensado: “Ok, nesse exemplo é bem óbvio que o valor 75 é um outlier. Mas e se for menos óbvio? Por exemplo, caso existisse alguém de 30 anos, eu diria que é um outlier? Onde traçar esse limite?”.

Bom, agora esbarramos em uma questão mais delicada. Como definir se um determinado valor é um outlier?

mais de uma forma de definir se um valor é um outlier univariado. E estamos falando de “univariado” aqui porque estamos pensando nos valores daquela observação para uma única variável – no caso do exemplo, a variável idade.

O ponto de corte baseado em quartis

O ponto de corte mais comumente utilizado para definir se um valor é um outlier é o utilizado na construção de um gráfico chamado boxplot.

Explicar boxplot foge da proposta deste post, mas eu tenho um post bem detalhado sobre isso – que, inclusive, é o mais lido do blog!
Caso queira entender como esse gráfico é construído, basta clicar aqui.

O boxplot clássico, chamado de boxplot de Tukey, define se um valor é um outlier com base na amplitude interquartil (que eu vou abreviar aqui como AIQ, mas que é também frequentemente abreviada como IQR, do inglês Interquartile Range). A AIQ é a diferença entre o quartil 3 (Q3) e o quartil 1 (Q1):

AIQ = Q3 - Q1

Para o boxplot de Tukey, um valor será um outlier caso ele esteja abaixo do limite inferior teórico ou acima do limite superior teórico:

Limite inferior teórico = Q1 - 1,5 x AIQ
Limite superior teórico = Q3 + 1,5 x AIQ

No nosso exemplo, os quartis 1 e 3 correspondem a 18 e 21, respectivamente.
Lembrando que você encontra uma definição mais detalhada de quartis no post de boxplot.

Portanto, a AIQ nessa amostra é 3:

AIQ = Q3 - Q1
AIQ = 21 - 18
AIQ = 3

Sabendo a AIQ podemos calcular os limites inferior e superior teóricos:

Limite inferior teórico = Q1 - 1,5 x AIQ
Limite inferior teórico = 18 - 1,5 x 3
Limite inferior teórico = 18 - 4,5
Limite inferior teórico = 13,5

Limite superior teórico = Q3 + 1,5 x AIQ
Limite superior teórico = 21 + 1,5 x 3
Limite superior teórico = 21 + 4,5
Limite superior teórico = 25,5

Ou seja, de acordo com a definição de outlier utilizada pelo boxplot de Tukey, qualquer valor abaixo de 13,5 anos ou acima de 25,5 anos será considerado um outlier nessa amostra de idades. A idade de 75 anos, portanto, será considerada um outlier de acordo com esse critério.

Perceba que ao construirmos um boxplot, a idade de 75 anos de fato é identificada como um outlier, sendo representada por um ponto:

O ponto de corte baseado em escore-z

De longe, a técnica mais utilizada para identificar um outlier univariado é a que eu expliquei acima, baseada na AIQ. Mas há outra possibilidade: definir se um valor é um outlier com base em seu escore-z (em inglês, z-score).

O escore-z consiste no seguinte cálculo, que padroniza os valores:

\[ \text{Escore}\text{-}z = \frac{\text{Valor} - \text{Média}}{\text{Desvio}\text{-}\text{padrão}} \]

Ou seja, calculamos a média, a subtraímos de cada valor e então dividimos esse resultado pelo desvio-padrão.

De novo, explicar desvio-padrão foge do escopo do post, mas você pode ler um texto bem didático sobre essa medida clicando aqui.

Ao fazermos esse cálculo, fazemos com que os dados passem a ter média igual a zero e desvio-padrão igual a 1. Portanto, uma idade que tenha um escore-z igual a 3 será uma idade que está três desvios-padrão acima da média. Na nossa amostra, a média é igual a 23,7 e o desvio-padrão é igual a 15,6. Aplicando a conta, obtemos os seguintes escores-z:

Idade (anos)

Idade − Média

Escore-z

16

-7,7

-0,5

17

-6,7

-0,4

18

-5,7

-0,4

18

-5,7

-0,4

19

-4,7

-0,3

19

-4,7

-0,3

19

-4,7

-0,3

20

-3,7

-0,2

20

-3,7

-0,2

21

-2,7

-0,2

21

-2,7

-0,2

25

1,3

0,1

75

51,3

3,3


Uma convenção é considerar que é um outlier qualquer valor cujo escore-z esteja fora do intervalo [-3; 3]. Ou seja, escores abaixo de -3 ou acima de 3.

Note que a idade de 75 anos também é considerada um outlier por esse critério, já que o seu escore-z é 3,3.

Vale dizer que essa definição de outlier com base no escore-z é mais adequada a dados que apresentam distribuição normal, uma distribuição em formato de sino. Se os dados seguirem a distribuição normal, apenas cerca de 0,3% dos dados estarão fora desse intervalo.

Por que os outliers são uma preocupação?

Até aqui você pode estar pensando: “ok, tem um valor discrepante na amostra, e daí?”. A nossa maior preocupação quando temos um outlier univariado na amostra é com relação à média e às medidas derivadas dela, como o desvio-padrão. A média é uma medida muito influenciada por valores extremos – o que significa que na presença desses valores ela pode não ser uma boa representação do conjunto de dados.

Para isso ficar menos abstrato, vou retomar o exemplo das idades. Nós vimos que a média da amostra é de 23,7 anos. Se eu te digo: “olha, tenho uma turma de pré-vestibular com idade média de 23,7 anos”, o que viria à sua cabeça? Eu mesma imaginaria que os alunos tem em torno de 24 anos, com idades variando entre 20 e 28. Mas veja: isso está bem longe da realidade da nossa amostra.

Quando a gente constrói um gráfico com todas as idades e coloca uma barra indicando a média, dá para ver que quase todos os alunos – com exceção de dois – têm idades abaixo da média:

Ao excluírmos a idade outlier, a média passa a ser 19,4 anos, um valor que representa a amostra de forma mais adequada:

Mas, se acalme. Isso não significa que você pode simplesmente excluir os valores outliers, ok?

Abaixo eu vou explicar os conceitos de outliers bivariados e multivariados. Se você não tem interesse nesse tema, mas quer saber como lidar com os outliers das suas análises, recomendo pular para essa seção.

Ah, eu também incluo essa explicação no meu curso, caso você tenha interesse em aprender análise de dados do zero ao avançado, com vídeo-aulas bem didáticas :)

Outliers bivariados

Até agora te expliquei como identificar um outlier univariado. Mas muitas vezes – principalmente ao rodarmos testes de hipóteses ou modelos de regressão – a nossa preocupação é com os outliers bivariados. Então, vamos entender isso melhor.

Variável numérica x numérica

O que eu vou explicar a seguir é fortemente baseado nesses dois posts incríveis:

Vamos imaginar que queremos avaliar a relação entre idade e pressão arterial sistólica. Essa relação de fato existe: a nossa pressão arterial tende a aumentar conforme envelhecemos. Mas aqui eu vou exagerar um pouco essa relação para fins didáticos, ok?

Perceba que nessa amostra, conforme a idade aumenta, a pressão aumenta. Podemos, inclusive, traçar uma linha que descreve essa relação (pontilhada em preto). Ao rodarmos uma regressão linear simples, vemos que o coeficiente para a idade é 1,6, indicando que a pressão aumenta, em média, 1,6 mmHg a cada um ano de aumento na idade.

Caso 1: outlier bivariado

Essa amostra inclui pessoas com idades entre 50 e 85 anos e com pressões arteriais entre 110 e 166 mmHg. Suponha agora que incluímos na amostra uma pessoa com 64 anos e 154 mmHg de pressão arterial.

Não parece um outlier, certo? Tanto a idade quanto a pressão estão dentro do intervalo observado nos demais dados.

De fato, quando avaliamos esse ponto (destacado em rosa) considerando apenas a pressão (gráfico à esquerda) ou apenas a idade (gráfico à direita), esse ponto não destoa dos demais. Portanto, esse ponto não pode ser considerado um outlier univariado:

No entanto, veja o que acontece quando consideramos simultaneamente a idade e a pressão:

No gráfico de dispersão conseguimos perceber que essa nova pessoa (ponto em rosa) destoa do padrão das demais: trata-se de alguém com pressão arterial mais alta do que o padrão observado para a sua idade. Portanto, a pessoa em rosa é um outlier – mas um outlier bivariado, que só passa a ser considerado outlier quando analisamos simultaneamente a idade e a pressão.

Nem todo outlier representa um problema no contexto da regressão. O problema aparece quando esse ponto é influente – ou seja, quando influencia, modifica, as estimativas da reta de regressão.

Note que o outlier em rosa não modifica de forma significativa as estimativas da reta: a reta estimada com ele (em preto, linha sólida) se assemelha muito à reta estimada sem ele (pontilhada).

Caso 2: ponto de alavancagem

Um outro conceito importante no contexto da regressão é o de “ponto de alavancagem”. Dizemos que um ponto tem alta alavancagem quando ele apresenta valores extremos nas variáveis explicativas. No caso de uma regressão linear simples, com uma única variável explicativa, um ponto será considerado “de alavancagem” quando estiver distante da maior parte dos dados no eixo x.

Para isso fazer mais sentido, vamos voltar ao exemplo. Agora vamos incluir uma pessoa com 99 anos e 186 mmHg de pressão arterial (em rosa no gráfico):

Perceba que essa pessoa não é um outlier bivariado. Isso porque o ponto segue a tendência linear dos demais dados e não destoa do padrão observado. No entanto, trata-se de um ponto de alavancagem, com um valor de idade (eixo x) bem distante do restante da amostra.

Ok, mas o ponto de alavancagem é um problema para a regressão? Não necessariamente. Isso porque ele pode ser um ponto de alavancagem, mas não influenciar as estimativas da reta – ou seja, não ser um ponto influente. Note que no exemplo o ponto em rosa não modifica de forma significativa a reta de regressão: a reta estimada com ele (linha preta sólida) é muito semelhante à estimada sem ele (linha pontilhada).

Caso 3: ponto influente

Como já discutimos, um ponto influente é aquele que modifica as estimativas da reta de regressão. Vamos voltar ao nosso exemplo e adicionar à amostra (em rosa) uma pessoa com idade de 96 anos e pressão arterial de 127 mmHg:

Perceba que esse ponto em rosa é:

  1. Um outlier bivariado, porque ele destoa do padrão linear dos demais pontos – em outras palavras, trata-se de uma pessoa com pressão arterial inferior à esperada para a sua idade
  2. Um ponto de alavancagem, porque a sua idade (eixo x) está acima das idades do restante da amostra, que vão até 82 anos

Uma vez que esse ponto é tanto um ponto de alavancagem quanto um outlier bivariado, ele influencia as estimativas da reta, é um ponto influente. Perceba como a reta estimada com esse ponto (linha sólida em preto) difere muito da reta estimada quando ele é excluído (linha pontilhada):

Como identificar um ponto influente?

Até aqui eu te falei que um ponto influente é aquele que é tanto um ponto de alavancagem quanto um outlier bivariado, certo? Mas podemos expandir essa definição para cenários multivariados (isso é, quando temos mais de duas variáveis no modelo).

De forma geral, um ponto influente é uma observação que apresenta, simultaneamente:

  1. Alta alavancagem – ou seja, apresenta valores extremos nas variáveis explicativas (variáveis independentes)
  2. Resíduo elevado – o que indica que esse ponto foge do padrão da relação descrita pelo modelo

Quando dizemos que um ponto tem resíduo elevado, não significa necessariamente que ele esteja distante dos demais pontos no conjunto de dados, mas sim que ele se afasta do valor que seria esperado pelo modelo ajustado. Caso queira entender melhor o conceito de resíduo, eu recomendo a leitura do primeiro tópico desse post.

A distância de Cook

Uma medida que nos ajuda a identificar se um ponto é influente é a distância de Cook, um valor cujo cálculo considera o resíduo e a alavancagem de cada observação. A distância de Cook pode ser pensada como uma medida que indica o quanto os coeficientes estimados pelo modelo mudariam, em média, se uma observação específica fosse removida do conjunto de dados.

Para isso fazer mais sentido, vamos voltar à amostra representada no gráfico abaixo. Vimos que o ponto em rosa é um ponto influente, uma vez que a sua inclusão na amostra modifica as estimativas da reta:

Calculando a distância de Cook para cada observação da amostra, obtemos os resultados abaixo, organizados da maior para a menor distância:

Idade (anos)

Pressão arterial sistólica (mmHg)

Distância de Cook

96

127

4,195

81

166

0,094

50

110

0,076

79

162

0,057

80

162

0,052

...

...

...

65

135

0,000

73

144

0,000

68

139

0,000

61

132

0,000

61

130

0,000

Repare que a maior distância de Cook (4,195) é da pessoa com 96 anos e pressão arterial de 127 mmHg, ou seja, o ponto que está indicado em rosa.

Ok, mas a partir de qual valor de distância de Cook consideramos que um ponto é influente?

Há vários pontos de corte sugeridos para a distância de Cook, mas uma regra bem usada é: pontos com distância de Cook acima de 1 são influentes; pontos com distância de Cook acima de 0,5 já devem ser avaliados com atenção.

Mas há outras sugestões. Um dos pontos de corte sugeridos é 4/n. Por exemplo, em um modelo com 100 observações, teremos:

4/100 = 0,04

Isso significa que observações com distância de Cook acima de 0,04 já seriam observações potencialmente influentes.

Calculando a distância de Cook

Em R, conseguimos calcular a distância de Cook com a função cooks.distance():

mod <- lm(pressao ~ idade, data = dados)

cooks.distance(mod) |>
  round(3) # Arredondei os valores para 3 casas decimais
##     1     2     3     4     5     6     7     8     9    10    11    12    13 
## 0.076 0.030 0.025 0.001 0.009 0.008 0.000 0.000 0.001 0.000 0.000 0.002 0.009 
##    14    15    16    17    18    19    20    21 
## 0.000 0.003 0.036 0.057 0.094 0.052 0.033 4.195

Veja que a distância de Cook de 4,195 está na linha 21 da minha base de dados – e essa é justamente a pessoa com idade 96 anos e pressão 127 mmHg.

A gente também pode pedir um gráfico que mostra a relação entre resíduo e alavancagem, e inclui uma linha correspondente à distância de Cook. Trata-se do gráfico 5 quando rodamos a função plot() para um modelo linear:

plot(mod, which = 5)

Caso queira mais detalhes sobre a interpretação deste gráfico, recomendo esse post que detalha os gráficos diagnósticos para regressão.

Variável numérica x categórica

O exemplo acima envolve duas variáveis numéricas. Mas podemos também detectar um outlier bivariado ao considerarmos simultaneamente uma variável numérica e uma categórica.

Vamos de novo partir para um exemplo. Veja as pressões arteriais abaixo. Perceba que as pressões variam bastante – de 94 a 154 mmHg – mas que nenhum ponto se destaca. Ou seja: não temos outliers univariados.

De fato, ao construirmos um boxplot com esses dados, nenhum ponto é considerado um outlier:

Ok, mas agora vou te dar mais uma informação: essa base de dados é formada por dois grupos, jovens e idosos. E eu quero avaliar a pressão arterial de acordo com o grupo. O que muda?

Observe que agora um ponto passa a se destacar no grupo dos jovens: uma pessoa com a pressão arterial de 140 mmHg, bem superior às outras pressões desse grupo. De fato, ao construirmos um boxplot esse ponto é identificado como um outlier:

Portanto, esse ponto é um outlier bivariado – que só passa a ser considerado outlier quando consideramos simultaneamente duas variáveis: a pressão e a faixa etária.

Se quisermos comparar estatisticamente esses grupos, a análise clássica a ser utilizada é o teste-t independente. No entanto, o teste-t nada mais é do que um modelo linear, como a regressão. A ANOVA, utilizada para comparar as médias de mais de dois grupos, é também um tipo de modelo linear. Isso significa que tudo o que discutimos para regressão se aplica aqui: para esse cenário também podemos calcular a distância de Cook para avaliar a influência desse outlier nas estimativas do modelo.

Note que o jovem com 140 mmHg de pressão arterial apresenta a maior distância de Cook – mas ela está abaixo do ponto de corte sugerido de 0,5.

Faixa etária

Pressão arterial sistólica (mmHg)

Distância de Cook

Jovem

140

0,188

Idoso

114

0,123

Jovem

94

0,074

Idoso

154

0,069

Idoso

152

0,054

...

...

...

Idoso

137

0,000

Jovem

112

0,000

Jovem

111

0,000

Idoso

136

0,000

Jovem

113

0,000

Como lidar com outliers?

Eu constantemente recebo a pergunta: “como eu excluo os outliers da minha amostra?”.
Ou então: “já rodei toda a minha análise sem os outliers, como meu orientador pediu!”.

E aqui eu preciso te dizer uma coisa importante: a primeira pergunta nunca deveria ser “como excluir?”, mas sim “devo excluir?”.
Já adianto que, na maior parte dos casos, outliers não devem ser simplesmente removidos.

Passo 1: definir como os outliers serão avaliados

O primeiro passo é entender que tipo de outlier é uma preocupação para você. Essa decisão depende da sua pergunta experimental e da análise estatística que será utilizada para respondê-la. Como assim?

Em análises descritivas, faz sentido nos preocuparmos com outliers univariados, já que estamos olhando para o comportamento de cada variável isoladamente. Ah, nos casos em que a análise descritiva envolve grupos, a avaliação deve ser feita dentro de cada grupo, ok?

Por outro lado, em análises inferenciais, como regressão, teste-t, ANOVA, remover outliers univariados não faz sentido. Um ponto pode ter um valor discrepante em uma variável e, ainda assim, não destoar do padrão dos dados. Vimos isso no exemplo de ponto de alavancagem.
Para esse tipo de análise, o foco não deve estar em outliers univariados, mas sim em pontos influentes – isto é, observações que têm impacto relevante sobre as estimativas do modelo. Ou seja, nesses cenários vamos avaliar a distância de Cook ou alguma outra medida de influência.

Passo 2: entender por que aquela observação é um outlier

Identificado um possível ponto discrepante (seja um outlier ou um ponto influente, a depender do seu objetivo), o passo seguinte é avaliar por que aquela observação difere das demais:

  • É um erro de digitação ou de aferição?
  • É um valor real, mas raro?

Imagine que estamos estudando idades e encontramos um outlier: 350 anos. Trata-se de um valor impossível, concorda? Portanto, esse valor só pode ser um erro de digitação. Nesse cenário, o que fazer?

  1. Caso seja possível, o valor deve ser corrigido – por exemplo, consultando a anotação original que foi digitada ou a fonte primária dos dados.
  2. Se a correção não for possível, a observação pode ser excluída, já que não representa um valor real do fenômeno estudado.

Caso você opte por remover outliers da sua amostra, essa decisão deve estar descrita no seu texto – seja em um artigo, dissertação, TCC ou tese. É fundamental justificar essa escolha e informar quantas observações foram removidas. Esse nível de transparência é fundamental para a avaliação crítica e a reprodutibilidade dos resultados.

Agora, pense em um cenário diferente: suponha que o outlier identificado corresponda a um valor real e plausível, ainda que raro. É o caso do aluno de 75 anos em uma turma de pré-vestibular, exemplo que abriu este post. Nesse caso, a lógica muda completamente. Quando o valor é real, não devemos excluí-lo.

No caso de análises descritivas, uma estratégia mais adequada é complementar a análise com medidas menos sensíveis a esse valor extremo. Além da média – que, como discutimos, é fortemente influenciada por outliers – podemos reportar a mediana, uma medida robusta a eles. Da mesma forma, além do desvio-padrão – uma medida derivada da média e, portanto, também sensível a valores extremos – podemos calcular medidas de dispersão mais robustas, como a amplitude interquartil (AIQ).

Quando pensamos em testes estatísticos, nossas opções são:

  • Utilizar testes mais robustos a valores extremos, como é o caso dos testes não-paramétricos
  • Utilizar testes mais adequados à distribuição dos dados, como os GLMs (Modelos Lineares Generalizados)
  • Fazer uma análise de sensibilidade: estimar o modelo com e sem a observação influente e, caso as conclusões sejam diferentes, discutir esse impacto no trabalho



Como citar esse post, nas normas da ABNT

PERES, Fernanda F. O que é um outlier?. Blog Fernanda Peres, São Paulo, 16 jan. 2026. Disponível em: https://fernandafperes.com.br/blog/outliers/.





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