O que é um escore-z?

O que é um escore-z?
O escore-z (z-score, em inglês) é uma forma de padronizar variáveis numéricas. Após a padronização, as variáveis transformadas passam a:
- Ser adimensionais – isto é, deixam de ter unidade de medida
- Ter média igual a zero
- Ter desvio-padrão igual a um
Vamos entender isso melhor!
Como é calculado um escore-z?
O cálculo do escore-z tem como base a média e o desvio-padrão do conjunto de dados. Para calcular o escore-z de uma determinada observação (x), basta subtrairmos a média e dividirmos o resultado dessa subtração pelo desvio-padrão (DP):
\[ z = \frac{x - Média}{DP} \]
Um exemplo de cálculo
Para que o cálculo do escore-z faça mais sentido, vamos partir para um exemplo. Imagine que temos uma amostra de mulheres que tiveram a sua altura, em cm, aferida. Ao calcularmos a média e o desvio-padrão para essa amostra, obtivemos:
- Média = 160 cm
- Desvio-padrão = 10 cm
Substituindo esses valores na fórmula do escore-z, obtemos:
\[ z = \frac{x - Média}{DP} \]
\[ z = \frac{x - 160\,\text{cm}}{10\,\text{cm}} \]
Imagine agora que temos nessa amostra uma mulher com 182 cm de altura. Qual será o escore-z para ela? Para descobrir, basta substituirmos o valor de x da fórmula pela altura observada:
\[ z = \frac{182 - 160\,\text{cm}}{10\,\text{cm}} \]
\[ \require{cancel} z = \frac{22\,\text{cm}}{10\,\text{cm}} = \frac{22\,\cancel{\text{cm}}}{10\,\cancel{\text{cm}}} = 2,2 \]
O cálculo resulta em um escore-z de 2,2. E observe que esse valor não tem mais unidade de medida porque, ao dividirmos 22 cm por 10 cm, acabamos cancelando a unidade cm.
Como interpretar o escore-z?
Aqui, de novo, eu vou partir para exemplos. Vamos seguir trabalhando com a amostra de mulheres cujas alturas apresentam os seguintes valores de média e desvio-padrão:
- Média = 160 cm
- Desvio-padrão = 10 cm
Qual seria o escore-z para uma mulher com altura média (160 cm)?
Para calcular esse escore-z, basta substituirmos o valor de x por 160:
\[ z = \frac{x - 160\,\text{cm}}{10\,\text{cm}} \]
\[ z = \frac{160\,\text{cm} - 160\,\text{cm}}{10\,\text{cm}} \]
Perceba que:
- Isso resulta em um numerador igual a zero (160 – 160 = 0)
- Ficamos com uma fração que divide cm por cm – essas unidades de medida se cancelam e o resultado, portanto, passa a ser adimensional, sem unidade de medida
\[ \require{cancel} z = \frac{0\,\text{cm}}{10\,\text{cm}} = \frac{0\,\cancel{\text{cm}}}{10\,\cancel{\text{cm}}} = 0 \]
Logo, uma mulher com altura igual à média da amostra terá um escore-z igual a zero.
Qual seria o escore-z para uma mulher com altura um desvio-padrão acima da média?
Uma mulher cuja altura esteja um desvio-padrão acima da média dessa amostra terá uma altura de 170 cm (160 cm + 10 cm). Para calcular o escore-z para ela, substituímos o x por 170:
\[ z = \frac{x - 160}{10} = \frac{170 - 160}{10} \]
\[ z = \frac{10}{10} = 1 \]
Portanto, uma mulher com altura 1 desvio-padrão acima da média da amostra terá escore-z igual a 1.
E qual seria o escore-z para uma mulher com altura um desvio-padrão abaixo da média?
Uma mulher cuja altura esteja um desvio-padrão abaixo da média dessa amostra terá uma altura de 150 cm (160 cm - 10 cm). Para calcular o escore-z para ela, substituímos o x por 150:
\[ z = \frac{x - 160}{10} = \frac{150 - 160}{10} \]
\[ z = \frac{-10}{10} = -1 \]
Portanto, uma mulher com altura 1 desvio-padrão abaixo da média da amostra terá escore-z igual a -1.
Um guia de como interpretar o escore-z
Note que:
- As alturas iguais à média têm z = 0
- As alturas um desvio-padrão acima da média têm z = 1
- As alturas um desvio-padrão abaixo da média têm z = -1
Isso é o mesmo que dizer que a variável padronizada pelo escore-z tem média igual a zero e desvio-padrão igual a 1. Também significa que qualquer escore-z indica quantos desvios-padrão um valor está acima ou abaixo da média da distribuição.
Vamos voltar ao primeiro escore-z que calculamos: o para uma mulher com altura igual a 182 cm. Vimos que esse valor corresponde a um escore-z de 2,2. Portanto, a nossa interpretação será: a altura dessa mulher está 2,2 desvios-padrão acima da média. Perceba que concluímos que está acima porque o valor de z foi positivo.
Por outro lado, suponha que calculamos o escore-z para uma outra mulher e obtivemos um valor de z = -1,5. A conclusão agora será de que essa mulher apresenta uma altura que é 1,5 desvios-padrão abaixo da média.
Relação entre o escore-z e a curva normal
Até aqui, vimos que o escore-z nos diz quantos desvios-padrão um valor está acima ou abaixo da média. Mas uma outra pergunta que podemos querer responder é: o quão raro é alguém estar 2,2 desvios-padrão acima da média? Para responder a isso, precisamos saber como os dados de altura se distribuem.
Em muitas situações, principalmente quando estamos lidando com medidas biológicas (como altura, pressão arterial), os dados tendem a seguir uma distribuição de frequências com formato aproximado de sino, que recebe o nome de “distribuição normal” ou “distribuição gaussiana”:

A distribuição normal tem algumas propriedades conhecidas:
- O seu valor central (tracejado em cinza na figura) corresponde à média e coincide com a moda e a mediana
- A distribuição é simétrica em relação à média (note como os lados direito e esquerdo são iguais, apenas espelhados)
- Os valores próximos à média apresentam maior frequência (note que há um pico justamente na média)
- Conforme os valores se distanciam da média, vão se tornando mais raros
Além disso, sabemos que, caso uma variável apresente uma distribuição normal, 68,3% das observações estarão entre a média mais 1 desvio-padrão (DP) e a média menos 1 DP:

Outra informação importante: 95,5% das observações estarão entre a média mais 2 desvios-padrão (DP) e a média menos 2 DP:

Vale dizer que é ainda mais famoso um outro ponto de corte: o 1,96. Isso porque 95% das observações estarão entre a média mais 1,96 desvios-padrão (DP) e a média menos 1,96 DP:

E um último ponto de corte famoso é o referente a três desvios-padrão (DP): 99,7% das observações estarão entre a média mais 3 DP e a média menos 3 DP:

Ok, mas o que isso tudo tem a ver com o escore-z?
Perceba que o escore-z é uma forma de representar os valores em desvios-padrão. Portanto, se uma variável – como a altura de mulheres – apresentar distribuição normal, isso significará que:
- 68,3% das mulheres terão escores-z entre -1 e 1
- 95% das mulheres vão apresentar escores-z entre -1,96 e 1,96
- 99,7% das mulheres terão escores-z entre -3 e 3
A figura abaixo mostra essa relação para o escore-z 1,96:

Podemos ainda pensar que apenas 5% da amostra apresenta valores fora da faixa [-1,96; 1,96]. Como a curva normal é simétrica, sabemos que:
- 2,5% dos dados estarão acima de 1,96
- 2,5% dos dados estarão abaixo de -1,96

Ou seja: o escore-z nos ajuda a identificar o quão frequente ou rara é uma determinada altura. Vamos retormar o exemplo da mulher com 182 cm de altura, supondo que essas alturas seguem a distribuição normal. Vimos que o escore-z para ela é de 2,2. Como esse valor está acima de 1,96, sabemos que essa mulher está entre as 2,5% mais altas da amostra.
Se quisermos ser ainda mais precisos, podemos calcular a probabilidade (área sob a curva) associada a esse escore-z:

Isso significa que apenas 1,4% das mulheres da amostra apresentam alturas iguais ou superiores a 182 cm.
Como eu cheguei a esse número mágico de 1,4%?
A gente consegue obter esse valor a partir de tabelas para a distribuição normal padrão, como esta. Mas você também pode calculá-la usando a seguinte formula em R:
1-pnorm(q = 2.2)Isso vai resultar em 0,0139 que multiplicando por 100 fica 1,39%, o que eu arredondei para 1,4%.
Exemplos de aplicações
IMC em crianças e adolescentes
Sabia que os pontos de corte para classificar o IMC em crianças e adolescentes se baseia em escores-z? A tabela abaixo traz a classificação de acordo com a OMS:
Escore-z | Classificação |
|---|---|
< -3 | Magreza acentuada |
≥ -3 e < -2 | Magreza |
≥ -2 e ≤ +1 | Eutrofia |
> +1 e ≤ +2 | Sobrepeso |
> +2 | Obesidade |
O cálculo do escore-z para essa finalidade leva em consideração o sexo e a idade da criança. Além disso, o cálculo é um pouco diferente do escore-z usual, porque considera as características da distribuição do IMC para cada idade e sexo. A OMS utiliza o método LMS, que permite levar em consideração a assimetria da distribuição. Há algumas calculadoras que fazem esse cálculo, como essa. A interpretação do escore-z, no entanto, segue a mesma lógica: valores positivos indicam que o IMC está acima do centro da distribuição de referência para aquela idade e sexo, enquanto valores negativos indicam que está abaixo.
Avaliar a relação entre variáveis em escalas diferentes
Esses dias circulou pela internet este gráfico, que analisava a relação entre o preço de hambúrgueres vendidos na cidade de São Paulo e suas avaliações. O gráfico traz uma faixa diagonal que, de acordo com o autor, corresponde à “zona de equivalência de valor”, a região “onde o preço é coerente com o valor entregue”.
Mas, veja, criar uma faixa de equivalência não é uma tarefa simples. Por que? Porque o preço e a avaliação estão em unidades de medida diferentes: o primeiro em reais, o segundo em posição no ranking. Como lidar com esse dilema? Uma excelente alternativa é calcular o escore-z para as duas variáveis. Dessa forma, os valores para ambas passam a estar na escala de desvio-padrão. Eu discuto isso em detalhes nesse post.
Como citar esse post, nas normas da ABNT
PERES, Fernanda F. O que é um escore-z?. Blog Fernanda Peres, São Paulo, 23 set. 2026. Disponível em: https://fernandafperes.com.br/blog/escore-z/.
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